quarta-feira, 16 de março de 2011

A juventude que se foi
não apagou a tua luz,
te guardou no infinito,
do outro lado do muro.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Celebração

mortos crus:
cruz das alturas,
nus de almas puras,
luz.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

o homem cheira a merda
e a mulher também.
eles estão na rua,
no chão da praça da república.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Adeus, felicidade.

eu que sempre fui um curioso,
vivo a compreender a felicidade,
quando ela me deixou,
não mais quis entender coisa alguma.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lar sem fim

meu pai abriu a porta
e aberta ela ficou.
mudou-se para o lar sem fim
e só saudade deixou.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A luz que se empresta

quem afirma o sentido que isso tem?
se a liberdade pertence
ao mundo dos sonhos, do consumo,
quanto dela é pesadelo?
quanto dela só nos faz bem?

meu coração se anima
fora das luzes da noite,
longe dos desenhos de hoje,
das imagens sem alma,
que não brotam mais em mim.

encontro, a contra gosto,
gente desesperada, que não aguarda.
sonhadores de um mundo mais fácil,
apaixonados por nada,
em momentos instantâneos.

quando é que se pode
trocar abraços por aplausos,
amigos por platéia?
quando o espelho é o único que reflete,
a imagem de hoje, a luz que se empresta.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um tempo de cansaço

Eu falo o português mal dito,
separado do meu apego,
porque sou brasileiro
e aqui me comunico.

escrevo simples,
porque é assim que gosto de ler.
as palavras que me resolvem
são as mesmas que peço algo pra beber.

eu pego de dentro
as histórias que trago pra fora.
conheço gente que se enfeita,
pra valorizar o lugar onde mora.

esses, de interior recipiente,
não me tem respeito, não me prendem.
os que me amam,
de mariposas entendem.

dia a dia, pouco a pouco,
eu me desfaço.
carrego de volta o meu traço,
aguardo por um tempo de cansaço.

observo:
amo gente interessante,
não quem precisa ser.
nem elas me amam tão bem.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Samba do Escuro

não me olhas
porque me queres
bem distante
das tuas cores.

no teu samba
eu sou ninguém,
um alguém
que brilha pouco.

não vês
que este escuro
é de um tempo
sem mentiras?

queres amigos
mais importantes,
todos sempre tão elegantes,
que completam a tua estante.

saibas que eu sou muito feliz
por gostar de ti.
que culpa tenho
estar aqui?

sinto que um dia
me verás diferente,
terás mais orgulho
do teu vidente.

seremos belos,
novamente.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

São Paulo Terceiro

é violento demais
esse jeitinho paulistano
que se fecha atrás do pano
para me desenhar cigano.

é descarado
o fanclube moderninho:
falsificado nas chapas,
de gosto próprio, de descaso.

gritam frases caladas, grafadas,
pintam protesto em panos,
em trapos mal lavados
com águas de outros riachos.

encontram:
um desejo de prazer
num sonho que ninguém acorda,
na fantasia de valor feliz,
só.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Encontro

o poeta cansou.
enquanto todos estavam onde se dorme,
observou o mundo pela última vez:
não mais viu a luz da manhã.

triste e cheio de nada,
neste curto presente, pensou:
"a vida é a causa que se perde",
calou.

o silêncio
apagou o seu pequeno passado de rotinas,
abriu a gaveta dos desgostos
e a desfez.

ante a partida,
desejou encontrar tudo que havia perdido,
abraçou-se em um impulso por amor,
pulou.

domingo, 30 de agosto de 2009

Sem você eu não sou eu

eu preciso me encontrar!
em você existe um lugar
prateado como um espelho
que eu me vejo e me observo.

nessa descoberta eu me desfiz
e o meu reflexo em suas águas
só me mostraram a verdade,
porque era a única coisa que cabia em mim.

quando te olho
vejo você atrás da minha imagem,
sinto uma mulher e não uma miragem,
abraço alguém que não sei perder.

por mais que eu seja louco, demente,
você é a única que me compreende.
me ama, não impota o quanto eu lamente.
te amo, mesmo eu, um falso crente.

minha bela Valente:
o mundo seria pequeno
se eu não a tivesse,
seria sim, todo ele, decadente.

sem você eu sou risível,
nem melhor que um pobre andarilho,
falso fraco, pouco ar: vazio.
sem você eu não sou eu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Novos Tempos

eu quero um pouco
da ingenuidade de dois anos atrás.
quero um pouco a mais,
além da juventude que me escorregou.

quero menos amor,
já que esse só me furou.
tirou a minha beleza,
me afundou na tristeza.

quero sim!
um caminhão de respeito,
agora que assumi
ser um cabide de defeitos.

não posso mais
andar precido a um rapaz,
escondido no breu.
peço luz e um pouco menos dessa cruz.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Fardo

fiquei com você,
fiquei louco de amor.
segurei-te em meus dedos
apertei-te descuidado, linda flor.

se eu pudesse compreender
aquilo que hoje Deus me tirou,
fecharia a ferida,
sangraria outra cor.

ah! se meus erros fossem falhos
e os meus sonhos fossem galhos secos,
seria, com certeza, mais frio
descrevendo a natureza.

vivo então,
com muito mais cuidado.
me exponho o tanto quando agarro.
caminho eu, eu e meu fardo.

sábado, 27 de junho de 2009

Pequenos Lugares

em casa pequena
o frio não mora,
mesmo que de fora
quem entra, vista blusa.

no banheiro de um só
o chuveiro é melhor.
cabe um, o banheiro
e mais ninguém.

a arte é a ferramenta
que ajuda a buscar o sentido.
ela me acha e me perturba
nos lugares muito pequenos, dentro de mim.

se só fechado eu posso escapar,
abro janelas em meu corpo.
suporto o frio, a dor e o sangrar,
para que o preso em mim consiga voar.

A dor e o abandono

O frio chegou.
meu corpo está todo quebradiço.
a pele seca, esbranquiça-me
e as pontas dos dedos adormecem.

é tarde da noite.
mudei a cama de lugar,
trouxe a para perto do interruptor.
quando termino de escrever, estico o braço.

alongar me lembra a juventude.
época feliz para ser gostado,
tempo em que o abraço desmontava o esqueleto,
que derretia o coração.

as vezes me esqueço de respirar.
acho que para dar um fim em toda a dor,
dor que os meus não querem mais ter,
que me torna evitável.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ele e Ela

da minha mãe
herdei a arte,
do meu pai
o coração.

fui o mais tímido
dos quatro filhos dele
e o mais carinhoso
com ela.

dela, ainda sou,
dele, agora é meu portal,
o infinito em mim
que se entra pelo peito

comigo ele aprendeu a compreender
aquilo que um homem de sucesso não respira
para ela eu ensino o que aprendi com ele
porque neles o caminho se abriu

em abril ele se foi
e deixou a liderança para mim.
os outros, que nunca deixaram nada,
deixaram-me partir.

meu pai e minha mãe!
meus portos seguros,
um em cada continente,
os primeiros: ele e ela.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Lágrimas para todos

domingo passado
foi dia da vontade de viver
aquilo que há muito não dava
nem pra morrer tranquilo.

nesmo pleno em dor
acompanhei a celebração
da eterna amizade
e os seus pulsos sem controle.

comungar é preciso
quando, do outro lado,
se ouve gritos,
pedidos de socorro.

se eu não estivesse mais
entre todos os outros
poderia libertar neles
o desejo do meu retorno.

em casos como este
a falta gesta a lágrima,
mas é no adeus
que ela pode nascer.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Segundo Lugar

- O dinheiro não traz a felicidade
assim se apresentou o dono da festa
depois, com capricho, completou:
- manda buscar

teria a sua alma
sorte ou azar,
por expressar as suas certezas
de maneira tão rasa?

no meio da noite
ele levantou assustado:
as luzes estavam acesas.
acordou ao sentir a sua fortuna escoar.

o que é o poder
perante a dúvida
e a certeza do adeus?
um conforto?

- o segundo lugar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cruz Adágio

vá de barco, meu querido
que o lar dos velhos
mesmo distante
nos deixa em paz

devagar é mais gostoso
dá tempo de lembrar quem ficou
e o que de lá lembra
todo o seu amor

se o tempo for curto
carrege esse lar
leve-o contigo
que ele acomoda sem pesar

quando voltar
nos traga presentes
encha a memóra de pertences
que só você sabe dar.

[poema presente: querido amigo Pete visitando a Alemanha]

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A Passagem dos Escravos

no meio do caminho a exposição encontra com o fim dos tempos.
da expressão desperta um belo abismo
e os velhos que nasceram do outro lado
despem-se das antigas mentiras

quem pede pelo número
amarra os pés do atrevimento.
só as máscaras da alma
sustentam opções de cura
e uma infinidade de limitações

a maquiagem do escravo descolou
aboliu a privação do coração.
da miséria fez-se fé
e num dispado ele se atirou na contramão.

salta, salta moleque triste
que é do outro lado que o caminho continua.
cair no abismo não é pior que esperar a ponte
em uma vida cheia, sem sol e sem lua.

foi assim que muitos se foram
é desse jeito que quem fica se vai
não é preciso entender
pois na estrada o passo é incomum.